Com rede própria de cabos submarinos, Brics quer garantir soberania digital de seus membros

by Francine Canto Boico
0 comments
brics propõe estudo para construir rede própria de cabos submarinos

Em movimento estratégico rumo à autonomia digital e à inclusão tecnológica, os países do Brics anunciaram neste domingo (6) que pretendem realizar um estudo de viabilidade para a construção de uma rede própria de comunicação de alta velocidade por meio de cabos submarinos. A proposta, celebrada na Declaração Final da 17ª Reunião de Cúpula no Rio de Janeiro, pode transformar a forma como as nações do bloco se conectam — e se protegem — no mundo digital.

POR QUE O BRICS QUER SEUS PRÓPRIOS CABOS DE DADOS?

Imagine um mundo onde os dados que trafegam entre continentes não dependam exclusivamente da infraestrutura de potências como Estados Unidos ou França. É isso que o Brics propõe: um ecossistema de comunicação que garanta velocidade, segurança e, acima de tudo, soberania na troca de dados entre seus países-membros.

“Fazer um estudo de viabilidade para o estabelecimento de cabos submarinos ligando diretamente membros do Brics aumentará a velocidade, a segurança e a soberania na troca de dados”, afirmou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante a segunda sessão plenária da cúpula.

CABOS SUBMARINOS: UM MAR DE DADOS SOB OCEANOS

A infraestrutura digital global depende, em grande parte, de cabos de fibra óptica que atravessam os oceanos, ligando continentes e garantindo o tráfego de informações, chamadas de vídeo, transmissões ao vivo e muito mais. No entanto, a maioria dessas linhas está sob o controle de países do chamado Norte Global — o que limita a autonomia digital de diversas nações.

A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, reforçou a importância de mudar esse cenário. “Os cabos de fibra óptica onde hoje circulam os dados são muito concentrados no Norte Global. Nós vamos fazer esse estudo de viabilidade. Foi uma decisão dos 11 países, e nós vamos buscar o NDB”, disse ela em entrevista à Empresa Brasil de Comunicação (EBC), referindo-se ao Novo Banco de Desenvolvimento, o “Banco do Brics”.

REDE DE COMUNICAÇÃO PARA UMA NOVA ERA DE IA

Mas a proposta vai além da conectividade: ela é também uma estratégia para acelerar o desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA) nos países do bloco. Com a troca de dados mais segura e eficiente, os membros do Brics poderão avançar em pesquisas e soluções de IA com maior autonomia e relevância global.

“A inteligência artificial, assim como todas as revoluções tecnológicas, não precisa ser vista como o bicho-papão. Precisa ser dominada. E o Brasil está demonstrando que pode fazer isso”, destacou Santos.

BRASIL E SEUS CENTROS DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Atualmente, o Brasil conta com 11 centros de competência voltados ao desenvolvimento de IA. Essas unidades atuam em áreas estratégicas como saúde, educação e agropecuária, dentro do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, que já mobilizou R$ 23 milhões em investimentos. A ideia, segundo a ministra, é aproximar a tecnologia das reais necessidades da população brasileira.

“Têm várias soluções brasileiras de inteligência artificial, e é isso que a gente quer: que cada vez mais a ciência e a tecnologia se aproximem das pessoas e não tenham os vieses que a gente conhece hoje, de uso indevido, de intolerância, de ódio, ou que afete a democracia”, disse.

DECLARAÇÃO DO RIO DE JANEIRO ABRE NOVOS CAMINHOS PARA O BRICS

A proposta de estudo para os cabos submarinos aparece de forma clara na Declaração do Rio de Janeiro, documento final da 17ª Cúpula do Brics:
“Saudamos a proposta brasileira de discutir, em 2025, a realização de um ‘Estudo de Viabilidade Técnica e Econômica’ para o estabelecimento de uma rede de comunicação de alta velocidade por meio de cabos submarinos entre os países do BRICS”, diz o texto.

Além disso, outro documento aprovado trata da Governança Global da Inteligência Artificial, reforçando o compromisso com uma IA ética, segura e inclusiva.

BRICS: FORÇA GLOBAL EM NÚMEROS E CONEXÕES

Composto atualmente por 11 países — Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Irã, Arábia Saudita, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos e Indonésia —, o Brics representa 39% do PIB mundial, 48,5% da população do planeta e 23% do comércio global.

Em 2024, 36% de tudo o que o Brasil exportou teve como destino algum país do Brics, e 34% das importações brasileiras vieram dessas mesmas nações. Não à toa, a construção de uma infraestrutura tecnológica própria é vista como passo essencial para consolidar essa aliança econômica e geopolítica.

MAIS DO QUE TECNOLOGIA: UMA QUESTÃO DE SOBERANIA

“Nós estamos em um tempo dadocêntrico, cuja questão dos dados é decisiva para uma agenda de desenvolvimento dos países. Nós temos que ter um cabo próprio, em que os dados sejam nossos, sejam desses países”, reforçou Luciana Santos.

Com a proposta, o Brics não apenas se movimenta para garantir mais segurança e independência tecnológica, como também sinaliza ao mundo um novo modelo de cooperação internacional baseada no compartilhamento, na inclusão digital e na soberania de dados.

Fonte: Agência Brasil

You may also like